quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A travessia

Amanhece acima das nuvens. A frase não me sai da cabeça. O menino sentado na poltrona da frente se remexe deitado no colo do pai. Quer proteger os olhos do sol que ainda está por nascer. É engraçado como dá pra ver tons de verde e violeta ao fundo do tapete de nuvens se você observar bem.

As primeiras cores do dia fazem brilhar os cabelos do garoto alemão sentado ao lado. Mas os tons fortes e dourados vão dando lugar a uma espécie de aquarela multicor. O menino da frente acorda e conversa com o pai em uma língua que não entendo bem, acredito ser holandês. Apesar disso, chama o homem de « papai ». A mãe, logo à frente, é portuguesa.

Estamos sobrevoando algum ponto na costa da África. O mapa indica que já passamos por Casablanca. A mulher da poltrona 16G se move impaciente. Solta só para tornar a prender os cabelos cacheados e castanhos. Meia hora nos separa de Lisboa. Outras três de Paris. O menino meio português meio holandês solta gritinhos histéricos para o sol. A moça sentada ao meu lado pede licença para observar a cidade que começa a se insinuar por entre as nuvens.

Me recosto na poltrona e somente agora olho pela janela de novo. Lisboa aparece pequenininha antes de ser engolida por uma nuvem dragão. A essa altura, fica difícil decifrar os formatos de suas massas de vapor. Antes que eu me detenha na tarefa, a voz da aeromoça indica que em instantes estaremos no chão.

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