O fim das aulas no Eurocentres me faz lembrar que logo será a hora de partir. São quatro semanas de passeios au bord de la Seine, pequenos achados no Marais, descobertas em cada esquina, buscas incansáveis pela cerveja mais barata.
Depois desse tempo (Para alguns, muito. Para outros, nem tanto), percebo que ainda me falta um número considerável de lugares a visitar. Não fui ao Père La Chaise para beijar o túmulo de Oscar Wilde ou oferecer cerveja a Jim Morrison. Não subi a Tour Eiffel, embora também nem pretenda. Quero apenas ir com Helena para a área da torre ver as luzes se acenderem. E tirar fotos noturnas, claro.
Não fomos ao Centre George Pompidou nem ao Buttes Chaumont – um parque que não está nos guias, mas, segundo Emmanoel e a atendente de um brechó em Montmartre, vale a visita. Lá se pode ver Paris do alto, dizem.
Pequenos causosE se a capital francesa não é uma festa, é um espetáculo para os olhos – seja pela arquitetura, pelos grandes monumentos ou mesmo pelas coisas que passam desapercebidas. Aqui, é comum encontrar nos cafés mesas com cadeiras totalmente viradas para a rua. Experimente sentar numa delas para apreciar a comédia e o drama das calçadas parisienses.
Você pode encontrar dois homens num duelo de baguetes. Olhar invejoso para o casal de namorados ou intrigar-se com a moça que passa chorando. Em Paris, você pode se surpreender com matrioshkas dançarinas de cuncun que fazem strip-tease. Quanto menos a boneca, mais desnuda – a prova parisiense de que os menores frascos guardam os melhores perfumes e os piores venenos.
Aqui é onde, se você correr para pegar o metrô e a porte fechar na sua perna, um japonês totalmente vestido de preto e com cabelo pintado de acaju e uma senhora negra com roupas muçulmanas – que dupla incomum – podem correr em seu socorro. Num café perto de Odéon, um senhor observa o espetáculo da rua. Na mesa, duas xícaras vazias de café. Do lado de dentro, uma jovem utiliza o computador. As mesmas duas xícaras vazias sobre a mesa.
Se sentar num lugar estratégico na sala 15 do Eurocentres, você vai observar uma velha senhora – a vizinha da frente – que, todo dia, repete um estranho ritual. Ela sai para a varanda e sacode um pano, como se se despedisse de alguém. Ensaia sempre os mesmos passos, como se na verdade dançasse um balé. Poderia sonhar com a Ópera. Quem sabe com Calígula, o espetáculo que estreia dia 31.
Mas antes que possa receber os aplausos de sua pequena plateia, ela retorna à escuridão das coxias. Para dentro de casa e para o anonimato. Sim, Paris é a cidade de Balzac, Sartre e Beauvoir, mas é, sobretudo, uma cidade de anônimos.
É onde um casal totalmente vestido de vermelho embarca em direção a Berlim. Onde um par de árabes é retido voltando de Amsterdã, e tem de abrir as malas para guardas sisudos. Os atendentes do Starbucks são mais lentos que em São Paulo, mas um deles até arrisca umas palavrinhas em português. “Eu sei falar um pouco. Qual o café? E o tamanho? Obrigado”. Acreditem ou não, em Paris, há vendedores e funcionários de lojinhas de souvenir que aprendem português só para falar com os turistas. E como aumentou o número de brasileiros que passa por aqui.
Nos Champs Elysées, um rapaz guarda uma câmera. Está conversando com uma moça bonita. Sento e observo. Um pouco antes, ele filmava os pés das pessoas que passavam. Lembro de Beleza Americana – poesia num saco plástico dançando conforme o vento. Produção cinematográfica independente, reportagem, apenas um prazer? Paris é uma cidade de pequenas delícias e delicados mistérios.
No Museu Rodin, uma menina se diz embasbacada com uma escultura – um casal de bebês que age como amante. A obra é do próprio Rodin, mas lá se pode encontrar as formas de Camille Claudel ou as tintas de Van Gogh, Rembrant e Monet. “O Pensador não me chamou tanta atenção. Alí tinha coisas que eu nunca havia imaginado”. A lua e a terra, uma delas. Um amor impossível. Caminhos que não se cruzam. As melhores obras nem sempre são as mais conhecidas, muitas vezes tampouco aparecem nas fotos. É preciso ir e ver.
EurocentresLuma me olha e desabafa: “estou triste”. Ela ouviu de um dos amigos do curso o que até então não tinha se dado conta: “ninguém aqui vai se ver outra vez”. Paris é uma encruzilhada entre a terra e a lua – poderia estar escrito na escultura de Rodin. Aqui certos caminhos se cruzam nem que ao menos uma vez. E se há chance para os enamorados, as amizades que se criam em Paris parecem mais eternas.
Penso nos meus próprios amigos e não deixo de sorrir. Será que eu os veria outra vez – aqui ou em outra parte do mundo? Larissa vai ficar até o final de março. Teo vai para a Romênia. Jennifer, para a Suíça. Helena volta para São Paulo levando na cabeça o mestrado na França. Segunda-feira vou com ela na Sorbonne. Por fim, Igor parte para o Rio no fim do próximo mês. Janeiro é o mês dos brasileiros no Eurocentres.
Começo a falar de Helena. Com dois dreads entre os cabelos cacheados, acredite, você nunca conheceu ninguém como ela. Se aventura em inglês, francês e espanhol, e já atravessou sozinha o deserto do Atacama. É mistura de artista e rock’n’roll. Tira fotos numa analógica e faz pinturas nas coisas que acha pela rua. Desimportâncias mijadas de orvalho, poderia dizer Manoel de Barros.
Ainda na faculdade, fez um trabalho sobre a desigualdade social em São Paulo espelhada nas linhas de metrô. A cada cor, a cada número, gravuras em vidro mostram grupos de pessoas em roupas, gestos e costumes. Helena é dessas pessoas que poderiam aparecer num conto do Caio – um dos anônimos que encontramos no transporte público a caminho de um lugar qualquer. Paulista, Praça da Sé, Vila Mariana. Para onde vai a menina não mede os passos pelo tamanho das pernas? “Liberdade”. “Vou com você”.
Jennifer é suíça, da parte alemã do país. É uma figura engraçadíssima, e suspeitamos que trabalhe para alguma organização secreta. Ela não fala inglês, francês e muito menos português, mas inventou de querer andar com os brasileiros. Numa de suas primeiras aulas no Eurocentres, aprendeu os cumprimentos. E passou o dia inteiro perguntando “Ça va?”. Ela fabrica queijos, cria uma cobra como animal de estimação e tem fobia de peixes.
É grandona, meio desengonçada, e constantemente reclama que os pés são muito largos para os sapatos. Dia desses nos surpreendeu com uma constatação: “Ami quer dizer amigo”. “Você não tinha nos dito, mas sabe falar português”, brinquei. Ela riu uma emoção que não se traduz.
Nem sei como falar de Larissa, o que faz parecer que escrevo um depoimento no Orkut. Se você não conhece, saiba: ela vai chegar de supetão. Não, não ela não é discreta. Se parece com as cores vivas e alegres de Barcelona. É um tanto mulher, sorriso e futebol. Tem mãos que falam pelos cotovelos e palavras que dispensam apresentação. Vem do Acre, essa terra que dizem não existir. O que não existe, creio eu, é essa menina. No bom sentido, claro e sempre. Ela que faz rir até aquela francesa que insiste em chamá-la “mignon”.
Teo vem do Rio de Janeiro – meio garotão, meio Zona Sul – e tem um senso de humor que desafia o riso. Confidenciei que tinha escrito essa frase para ele quando voltávamos de Amsterdã, e agora me falta o jeito de continuar. Ele fecha os olhos com o cenho franzido a todo instante. Parece menino. E reclama do teto, da decoração e da comida dos recintos franceses. É na verdade um chato, meio careta, mas você vai gostar dele de cara. Vem embalado num ritmo de samba – sempre alegre -, no choro da cuíca, no som do violão.
Engraçado é como a gente conhece e gosta de gente tão diferente da gente. Com algumas pessoas, sequer trocaríamos algumas palavras se estivéssemos em casa. De todos que conheci, provavelmente o Igor seria a minha amizade mais óbvia. Não tem nada a ver com o jeito metódico, a mania de saber de tudo um pouco ou o jeito de cachorro solitário – uma onda meio “Lobo na Estepe”.
Fosse talvez pelo fato de gostar de quadrinhos, The IT Crowd ou por ter ficado tão impressionado quanto eu com a possibilidade de uma edição do Le Monde toda em BD. Deve ser, no fim, culpa de um suposto problema muscular facial (uma mentira deslavada, e a Helena acreditou) que impede que ele pare de sorrir.
Que manobra do destino ou do acaso fez com que todos nos encontrássemos em Paris – cada um com seus próprios motivos para aprender francês? Para entrar no mestrado numa universidade francesa, por causa do trabalho ou apenas para ler Camus. Paris, quantas outras histórias você guarda, velha senhora? Nem parti e já sinto saudade. Saudade, essa palavra que só existe em português.
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