A música me prende e mal consigo escrever. Francis Cabrel não é um cantor genial, mas quem mandou escrever l'amour comme s'il pleuvait [sur tous les murs qu'il a trouvé]? Paris é uma cidade de apaixonados e cenas que tiram o fôlego.
I
Como que em câmera lenta, ela moveu os pés para junto dos dele. O céu estava claro, mas eles seguravam um guarda-chuva vermelho. O mundo fora de seu pequeno universo era tão frio e tão cinza. Foi em Versailles, nos jardins. Lembro de Maria Antonieta, de Sofia Coppola. "Se eu fizesse um filme, queria essa cena nele". Digo e Helena sorri. Ela carrega no riso fácil o gosto pela arte. Tem com as plásticas uma intimidade que dispensa a poucos.
Helena fotografa. A câmera analógica esconde os mistérios sob o guarda-chuva. Não consigo ver seus rostos. Ensaio um passo para a direita e olho para trás, mas o homem é mais rápido. Permanece o mistério. A cena se desenrola lenta e, então, paro de tentar decifrar a felicidade.
II
Em Paris, numa das pontes do Sena, alí pertinho do Musée du Louvre, há segredos e amores que se agarram ao ferro e à cidade. Casais apaixonados não se cansam de prender cadeados no parapeito da ponte. Alguns trazem corações desenhados, outros trazem iniciais. Há ainda aqueles onde os nomes foram escritos por completo, sem pudor.
De tempos em tempos, a Prefeitura retira o enlace dos amantes. Nada que impeça que, num curto intervalo, a ponte volte a se encher com juras eternas de amor.
III
Eles se abraçaram no metrô abarrotado de gente. Tinham mais de 60 cada um. Ele com cabelos brancos e raros. Ela com os lábios pintados, os olhos tão vivos. Ela recostou a cabeça no peito dele. O homem beijou-lhe a testa. Ela sorriu. Ele olhou feio para a menina que assistia a tudo descarada. Os franceses são alheios à felicidade dos outros. Ou ao menos fingem sê-lo quando alguém presta atenção. São um povo de delicadezas discretas.
Arts et métiers é a próxima estação. Eles descem e tornam a se abraçar na plataforma. Alheios ou não, os parisienses são adeptos às histórias de amor. Mais arts que métiers. E então, o trem parte para a estação seguinte.
IV
Ele toca saxofone, uma melodia triste, enquanto vê a moça passar. Ela tem cabelos meio curtos, castanhos claros [quase loiros], que dançam ao som da música - ao bel prazer do vento. Ele olha de soslaio para a menina, encena um suspiro e volta a tocar.
Ela continua a andar - os pés se movendo como se acompanhassem o ritmo do saxofone. Uma melodia triste. São vidas que se cruzam, mas não se encontram. Ela está com as amigas. Ele toca com outro rapaz. Haveria tempo? Quem sabe um "oi", um "olha, eu não consigo tirar os olhos de você". Haveria espaço para o clichê: "Você acredita em amor à primeira vista?". Paris é uma cidade de suspiros entre encontros e desencontros. É um lugar onde se pode ouvir - entre uma e outra canção de amor - aquelas cruéis palavras: "e se...?".
Todo mundo deveria se apaixonar em Paris. Por Paris. Paris não é tão bonita sem um certo rapaz.
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