quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Hora de partir

Está quase na hora de deixar o endereço na rue Claude Vellefaux. O studio de 15m² foi como uma nova casa do outro lado do oceano. Uma que tem mais ou menos o tamanho do meu quarto, mas quem se importa?

Alí ao lado do Hôpital Saint Louis. Pertinho do Franprix, do croissant mais gostoso de Paris, da estação Goncourt. Alí onde uma fileira de bicicletas se estende ao alcance do seu passe Navigo. Emmanoel mora quase ao lado – se mudou para a casa da namorada – e oferece ajuda e açúcar para caso precisarmos. Estamos perto do Canal Saint-Martin. Penso em Luma e sua mania constante de faxina. E o jeito como reclama da minha desordem.

Ela sabe, entre as garfadas da minha comida salgada e goles do vinho rosé, que eu não poderia ter escolhido companhia melhor. Escrevo linhas trôpegas, embaladas pelo álcool, ah, mas ela sabe. E numa quinta-feira à noite, enquanto eu durmo no sofá – completamente vestida para sair -, ela se ocupa no banheiro. “Tá se arrumando?”. “Tô limpando a pia”, comenta distraída. Um cochilo depois, questiono: “tá pronta?”. “Agora é a vez da privada”.

Ou ainda: “Tenho um programa melhor: que tal a gente ver se esse aspirador de pó tá funcionando e dar uma geral aqui?”. Eu me divirto com o jeito avoado, os passos vagarosos, a cabeça nas nuvens. E me surpreendo com as posições sérias, os argumentos firmes e o tom que não vacila. Luma é uma menina de contrastes bonitos, mas sempre traz a voz serena.

Dizem que é perigoso viajar com um amigo. Duas pessoas íntimas podem virar inimigas mortais depois de uma temporada juntas. Os defeitos são ampliados pela convivência. Olhar para o outro com uma lente de aumento incomoda. As pequenas incompatibilidades se tornam grandes. É por isso que tanta gente se separa depois de morar junto. Mas Luma conhece um tanto do melhor e do pior de mim. E enquanto abocanha mais um pedaço de gouda na geladeira, ela sorri e conta sobre o dia anterior.

E me deixa cozinhar, seja para a alegria ou a tormenta. Ela vai deixar as cenouras no prato sem sequer avisar que não gosta. E eu vou esquecer de tirar a casca das batatinhas. Ou vou salgar a comida em bocados intragáveis. Eu vou tomar todo o vinho, e dissuadi-la a dividi-lo comigo. “Pode colocar mais pra você”. “Não, eu tô tentando parar”. Passamos do Côte du Rhone para algo de mais sofisticado. Ensaiamos um Vouvray e mudamos os hábitos do rouge para o rosé. Eu ando tão la vie em rose.

Testamos cervejas, de 1646 à Kronenbourg, passando por 3 Mois e Kronicsbacher (ou algo assim). Numa terça à noite, abrimos uma Chimay, uma morena produzida numa abadia trapista – o tipo de coisa que você não encontra em Paris, mas que pode chegar na sua vida pelas mãos de um amigo de Charleville.

O studio na Claude Vellefaux abriga uma pequena coleção de delícias. Compramos Petit Écolier, queijo de cabra, camambert, tortinhas e saussisson sec. Sem falar nos vinhos, acompanhamento para os almoços e jantares que fazemos em casa. Eu quase sempre cozinho e fico enrolando pra lavar a louça. Luma suja e corre logo para a pia com o prato e copo que usou.

A minha maquiagem fica do lado da pia. A dela, guardada numa bolsinha na nécessaire. Comprei quatro livros em Paris, e todos estão empilhados numa estante improvisada. Deixo a mala deitada no chão. A dela está sempre em pé. A bacia com nozes em cima da mesa é reservada a momentos de descontração – sentamos aqui para trocar uma ideia e ver o tempo passar. A hora de muitas conversas é logo antes de deitar, na cama que dividimos na parte de cima do kitnet. Ela fala do dia dela, eu falo do meu. Rimos das coisas que fizemos juntas e revelamos os momentos do dia que pertenceram só a nós mesmas.

Achamos graça nessa troca. Não é preciso ficar junto todo o tempo, mas sem esse instante as coisas fariam menos sentido. E nos apaixonamos pelas embalagens de uma casa de docinhos em Montmartre. E ficamos na expectativa de um Berthilon ou de uma delícia da La Durée. E ela sai pra me mostrar o que viu. “Tenho que levar você ali”. E eu a arrasto pelas ruas do Quartier Latin ou do Boulevard Saint-Michel, enquanto ela me faz andar por uma Paris abaixo de zero – numa madrugada insone.

Subvertendo a rotina, desse jeito, Paris parece mesmo como um lar. Se não fossem as malas arrumadas – a lembrança da passagem breve – poderia dizer que estava em casa. “Eu vou sentir saudades daqui. Acho Paris mais bonita agora que vou embora”, ela me confidencia. Logo que chegou, achava os passeios meio sacais: “Já vi isso em fotografia”. Mas há recantos que não se pode descobrir pelos livros.

Helena me leva a um dos parques mais bonitos de Paris, de difícil localização e desconhecido aos turistas. Por isso, apelida-o de “Jardim Secreto”. É preciso passar por um trecho em reforma, uma obra tridimensional de um artista contemporâneo, e uma sorte de pequenas galerias. “Olha, tem esse parque, você quer conhecer?”. “Como eu recusaria ir a algum lugar chamado jardim secreto? E ainda mais em Paris”.

Está quase na hora de deixar o endereço na Claude Vellfaux. A vizinhança, em um mês de esbarrões no portão, não fala mais que um polido “Bonjour” ou “Bonsoir” – mas da minha janela tenho a vista da arquitetura bonita do Hôpital Saint-Louis. E, a alguns passos de casa, posso ver a Tour Eiffel se erguer em sua majestade de ferro.

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