quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sexta-feira à noite em Paris

Sexta-feira à noite em Paris. As ruas do Boulevard Saint-Michel começam a fervilhar com moderninhos que aos poucos vão se acomodando nos bares. No pub onde entramos já e não há mais cadeiras vazias. São pouco mais de 18h. Esperamos em pé por um lugar vago entre um gole e outro de cerveja. Nos acomodamos ao fundo e de repente nos vemos embalados por uma voz rouca que canta "we could be heroes just for one day". Acreditamos. Uma dupla de irlandeses parece querer sentar na mesa à frente. Não, não. Eles retiram a mesa e as cadeiras para montar um palco improvisado. Teremos música ao vivo às 22h.

O cantor brinca com a plateia. "I wanna play l'amour". E admite: "I'm going to get laid tonight". A essa altura o pub já está lotado. Não há mais lugar para ficar - em pé ou sentado. O par de irlandeses começa a apresentação que mais tarde se mostraria uma deliciosa mistura. Entre uma música e outra, pausa para um beat-boxing. A melodia muda, de repente algo mais instrumental. E de novo a letra.

Na parte de baixo do bar, outra festa. Um novo grupo de jovens balança os corpos num ambiente escuro salpicado de luzes neon. O ritmo é mais agitado - entre o pop e o eletro - e as pessoas se movem completamente alheias ao que acontece no andar de cima. Lá, o cantor irlandês solta uma gracinha: "I wanna baiser ce soir". Um rapaz de pé no meio da pequena aglomeração se prontifica: "I wanna do it!". Ouço uma risadinha discreta de alguém no "backstage", onde estávamos - a única mesa atrás do palco, que dividíamos com um grupo de franceses.

A moça ao meu lado puxa conversa. Está em Paris por causa dos estudos. Não me lembro ao certo de onde veio, da Borgonha, talvez. Um de seus amigos se anima e bate com o copo de cerveja na mesa ao som da música. E a festa segue seja ao ritmo de Johnny Cash ou de Simon&Garfunkel.

O tempo avança e a hora do metrô fechar se aproxima. Temos que ir, tudo bem. E saímos meio torpes para a estação Saint-Michel, cheios de riso e de palavras soltas. Mas nada poderia nos preparar para o carinha meio rasta que tocava uns acordes dentro de um trem para Châtelet. O cantor inusitado nos dizia ao insinuar da madrugada: don't worry, be happy.

Os demais passageiros balançavam o tronco de um lado para o outro e um jovenzinho brandia uma garrafa de vinho quase vazia. Tinha sido completamente tomado pela música. Don't worry. Be happy. E fomos.

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