Mesmo no inverno, os parisienses lotaram as imediações do Canal St-Martin no domingo. "Quando faz sol, você percebe que muita gente mora aqui", é Emmanoel quem explica. Ele é filho de um amigo do meu pai, Roger Guilleux. Roger é do corpo diplomático francês e, por isso, morou com os filhos em vários lugares do mundo. A vida cigana fez com que cada um escolhesse um destino.
Clarice, a mais nova, vive em Rennes, no oeste da França. A mais velha, Candice, depois de uma faculdade de dança contemporânea, resolveu se mudar para a Espanha. Foi morar em Barcelona, numa área rural, para fazer algo tipo aromaterapia. "Agora ela vai pra Burkina Faso. Diz que precisa respirar". Por fim, Emmanoel ficou por Paris. Mesmo estando há apenas três semanas de apresentar seu trabalho de conclusão do curso de arquitetura, ele se ofereceu para levar Luma e eu para uma volta pelo canal.
"Sabe o filme Amélie Poulain? Aquela cena logo no começo, quando ela joga o peixe vermelho no lago? Foi filmado numa dessas pontes". Numa aventura cinematográfica por Paris, lembro d'O Albergue Espanhol: a menor calçada da cidade, onde os pés de Xavier e Martine disputaram os 8cm (é isso mesmo?) de espaço para que pudessem trocar um beijo. Pés e lábios entrelaçados.
Sim, ele não sabe onde fica. Moi non plus.
À nossa volta, crianças correm de patins ou de bicicleta sob o olhar atento dos pais Sábia escolha: pedalar por Paris é mais rápido que pegar o metrô. Em toda a cidade há espaços onde você pode "alugar" os aparelhos por 1 euro. Ao final, é só devolver a bicicleta em outro dos pontos espalhados pela capital. Se o passeio durar menos de meia hora, sai de graça.
Não sei andar de bicicleta, confesso. As pessoas riem quando falo, mas é verdade. Emmanoel também ri, claro. Como não poderia? Entre risos, ele nos mostra alguns bares por alí. Num rolam exposições de arte. Outro está lotado. Por fim, sentamos do lado de fora de um terceiro barzinho e pedimos uma cerveja cada. Incrível a diferença entre os preços dos lugares turísticos e outros - estes frequentados, em sua maioria, por parisienses.
Em République, perto do canal, as cervejas saem por 2,50 euros. Perto de Notre Damme, por outro lado, é preciso preparar o bolso. Na entrada do Quartier Latin paga-se 9 euros numa Kronenbourg. Experimente andar mais alguns metros e vai encontrar a mesma cerveja por 3 euros.
Entre um gole e outro de bière, falamos de política a banalidades. Lula, Sarkozy, o menor apartamento do mundo, a China e o Brasil. Emmanoel divaga sobre como a arquitetura mostra a cultura de uma cidade. Será tudo planejado, como em Brasília? Ou será que o espaço urbano tudo aceita, com em New York? E Paris, como fica? Paris com suas discotecas subterrâneas. Paris com suas paisagens que pouco mudam? Paris, com uma dama de ferro no meio da cidade - a Tour Eiffel que se ergue e destoa do restante das construções? Paris com suas ruas irregulares, quadras em formato de triângulo?
O segredo se esconde, quem sabe, naquela ponte onde uma menina deu a liberdade a um peixe vermelho.
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