Quinta-feira foi a minha última noite em Paris. Encontrei os amigos para um sorvete e uma volta no Marais. Uma despedida depois, me vi sozinha na cidade da luz. Andei perto de Notre Dame (parfois couve un drame), o primeiro ponto turístico que visitei depois de chegar a Paris. Passei pelas mesmas lojinhas de souvenir, inclusive aquela onde se lia na fachada “Souvenirs de Paris” – e da qual tentei tirar uma foto, do outro lado da rua.
Eram quase 20h, mas os turistas estavam ali – firmes e numerosos – para fotografar a catedral acesa. Eles estavam chegando. Eu, indo embora. Sim, Paris será sempre Paris – independente dos franceses ou dos turistas. Independente de quem vai e quem fica. Paris não precisa de mim e da minha poética torta. Quantos artistas famosos ou anônimos já lhe moldaram em prosa ou em verso? Na Place de Tertre, quantos pintores tomam emprestadas suas ruas e monumentos para dar vida às telas brancas?
Pego o metrô com as mesmas pessoas apressadas. É meu último dia em Paris, e tudo continuará exatamente igual. Ando sem pressa. Vou descer ali perto do Pompidou, em Rambuteau. Se não fosse o avançado da hora, teria ido a pé. Queria assistir um filme cujo cartaz me chamou a atenção: un été suédois. Não fazia a menor ideia do que iria ver. Me rendi ao improviso.
O filme começa. O tempo é passado, mas uso o presente para resgatar a memória – para vivê-la de novo. Me sinto invadida por uma espécie de clausura. É minha última noite em Paris e eu estou sozinha numa sala calourenta de cinema vendo um filme sueco. Não entendo nada que os atores falam. Me restam as legendas. É preciso transcrever a emoção.
Quero sair correndo para a rua e descortinar os cenários que me escaparam à vista. Fui ao Père Lachaise, sim. Pulei a grade do túmulo do Jim Morrison para conversar com ele. Recitei um poema para Oscar Wilde. En français, bien sûr. Lá também estão Artaud, Piaf, Chopin. Olho o mapa do lugar. A lista de mortos célebres indica um palhaço e um animador (seja lá o que isso queira dizer). Verdadeiras amantes também estão enterradas no mais famoso cemitério de Paris.
O Parc Buttes Chaumont, no entanto, vai ficar para uma próxima visita. A Tour Eiffel idem, embora eu não recomende a subida. Ver a cidade do alto e não avistar a torre, seja onde for, faz de Paris menos Paris. Uma bela vista é a da Tour Montparnasse ou mesmo do magazin Printemps (que, além de tudo, é gratuita). Aos mais aficionados pelo mais famoso monumento francês, recomendaria subir a pé. Apesar de cansativo, com o exercício, é possível ver os detalhes trabalhados no ferro dessa dama firme e delicada.
Há ainda tanto para ser visto, mas esqueço. “Eu nasci aqui e nunca vi tudo”, me confessa Danielle, uma vrai francesa. Volto ao filme. “Um filme sobre a infância”, está escrito no cartaz. E a infância daquela menina me conforta. Ela se lambuza com terra e corre pela casa para alimentar uma fome de África. Ela conhece os céus, faz amigos, voa num balão, brinda com a solidão, cuida de si. Aos dez anos, é quase adulta e quase menina. Ela me saúda e me enche de saudade.
Depois, encontro com Luma. Cerveja, música, pizza, dança. Perdemos a hora do metrô, uma aventura. Saimos andando meio trôpegas. Táxi para casa - riso solto e uma espécie de melancolia antecipada.
No dia seguinte terei que ir ao aeroporto. Terminar de arrumar as coisas, dar uma geral no apartamento, fazer malabarismo para conseguir fechar a mala, lavar o resto da louça, providenciar o que comer. No aeroporto, outra corrida para fazer o detax de alguns produtos comprados. Do Orly Oest para o Orly Sud, e vice-versa. Oito horas de voo. Sento na janela para uma travessia sem poema. Desvio os olhos do tapete de nuvens para o livro que trouxe na bolsa. Um dos tantos que comprei em Paris.
Foi um souvenir que me levou a Paris. E mesmo usando o tempo presente, nada me faz esquecer que deveria usar o passado. Paris revisitada na memória. L’air de Paris. Como na peça, lembra? A caixinha que a Ana recebeu da avó naquela peça sobre sexo, mentiras e videotape. L’air de Paris. Um souvenir. Os ares daquela cidade tão grande ali, nas suas mãos. Paris: de longe, ainda posso ouvi-la respirar.
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