quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Parênteses para o Egito

Segunda-feira à noite em Paris. Amigos reunidos entre garrafas de champagne. Thiago acabou de voltar do Egito. Ele conta e não acredita nas histórias que presenciou na terra dos antigos faraós. Foram três dias de viagem do hotel onde estava hospedado até o aeroporto do Cairo.

Depois, outras 31 horas de espera pelo voo - sem água, sem comida, dormindo no chão. Os passageiros foram proibidos até de sair para tomar um ar, fumar um cigarro. E, por isso, fumavam dentro do aeroporto mesmo. Alí, um número incontável de guardas agia para manter as pessoas sob controle.

Thiago tenta comprar água, mas não consegue. No máximo uma coca cola para matar a sede. Ninguém sabe quando vai conseguir deixar a cidade. Papel não vale nada quando não se tem o que beber. As lanchonetes acabaram seu estoque. A Embaixada do Japão foi a única que conseguiu intervir. Eles enviaram mantimentos, que os japoneses resolveram partilhar com todo mundo. “Foi a minha sorte”.

Nos últimos dias, mesmo abrir a torneira no banheiro do aeroporto era sinal de decepção. E a previsão de partida não vinha. Prenderam jornalistas no Cairo. Tempos de revolta são tempos difíceis, ninguém duvida. E enquanto alguns esperam uma revolução, outros só querem voltar para casa. Mas onde estão as notícias, para onde vão as notícias?

Thiago fala com a mãe pelo telefone somente ao chegar em Paris, mas não entende nada. Ela só faz chorar, soluça algumas palavras. “Você vai ficar de castigo”, entende. E desliga. Ainda no Egito, ele tentou usar o telefone de um dos seguranças. Pagou 10 euros, mas cai na caixa postal.

Ele olha ao redor, tudo sujo. As pessoas estão imundas depois de dias sem tomar banho, muitos sem sequer escovar os dentes. Para quem mal consegue comer, escovar os dentes chega a ser uma preocupação supérflua. Homens e mulheres caídos no chão lotam o aeroporto. Thiago voltou. Alguns continuam por lá. A amiga da Nova Zelândia tira fotos e faz filmes. Ela faz cinema, ela faz cinema – como na música.

Ele teve sorte. Viajou pela Swiss Airlines, e a autonomia da Suíça contou ao seu favor. O vôo vai sair, mesmo com atraso de quatro horas – é a certeza. O check-in é feito na hora, mas muitos outros aviões esperavam para decolar. Só a companhia suíça tira as aeronaves do chão. Ele agradece a sorte. “Parece que isso me aconteceu em outra vida, e faz tão pouco tempo”.

Estudante de medicina, Thiago veio estudar francês em Paris. Daqui, resolveu sair e conhecer lugares próximos, alguns improváveis. Começou o curso logo depois de ter voltado de Praga. Depois, o Egito – por que não? Foi numa excursão que estava paga desde julho. Lá, num trem, quando se dirigia ao Cairo, viu policiais batendo na locomotiva e mandando todos os passageiros saírem. Ele saiu.

Lá fora, tanques de guerra dividiam as ruas com carros e pessoas. A polícia usava bombas de gás lacrimogênico - quando não coisa pior - para dispersar os egípcios. Num malabarismo, ele conseguiu chegar ao hotel. O guia turístico teve de deixá-los. Precisava ir para casa, proteger a família.

No outro dia, pôs à prova que o Egito é uma terra de êxodo. Enquanto dormia, um novo aviso: “Os manifestantes estão chegando aqui”. E o alerta para ir embora. Não teve tempo de arrumar as malas. Saiu com a mochila nas costas, somente. E foi para o aeroporto. Longa espera no Cairo. “Foram os piores dias da minha vida”. E quando ele achava que não, o Mar Vermelho se abriu.

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