quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Paris não é uma festa

Sinto os olhos de Caio (Fernando Abreu) sobre mim: Paris não é uma festa. Não. Para os parisienses, é uma cidade de trabalho duro e, em muitos casos, poucas recompensas. É um lugar de desigualdades, sim, mas isso não sai na TV.

E a vida nunca foi tão cara. Danielle se queixa do preço do pão: 1 euro ou o equivalente a 7 francos (a antiga moeda). O preço subiu, mas os salários não aumentaram. Sim, Paris é uma cidade de pessoas que nem sempre vivem bem. Aqui um studio de 15m² pode custar uma fortuna.

Alguns funcionários da Prefeitura, inclusive, levam uma vida de clochard. Não é fácil alugar uma casa na capital francesa, sobretudo ganhando um salário mínimo. Quem recebe pouco mais de mil euros por mês não tem como pagar 700 de aluguel. Esses são os SDF (sans domicile fixe), que lotam as estações de metrô com pedidos de "s'il vous plaît".

Como em qualquer outra parte do mundo, os parisienses reclamam do transporte público - cuja qualidade é sempre a mesma, mas o preço sobe constantemente. Nos horários de pico, o metrô até parece São Paulo - as pessoas imprensadas, quase sempre atrasadas para o trabalho e com o mau humor parisiense.

Diante das intempéries da vida, o parisiense assume ares depressivos. "Vocês do Brasil são mais felizes, vão levando a vida como dá. Aqui não é assim", fala Emmanoel - filho de pai francês e mãe pernambucana.

Paris é uma cidade onde um casal de indianos trabalha de domingo a domingo, das 9h às 21h30, num espaço anexo à casa onde vivem - próximo ao metrô Goncourt. É onde, em determinadas épocas, o acesso ao topo da Tour Eiffel se transforma em palco para uma onda de suicidas. Alguns dos infelizes, por outro lado, escolhiam se jogar do alto de Notre Dame.

Paris está sempre cheia de turistas de todas as partes do mundo, mas os franceses nem sempre vêem com bons olhos os estrangeiros. No mais, em muito, é o turismo que mantém a capital francesa funcionando. E enquanto muitos vêm, os pesquisadores vão embora. Nem sempre há recursos para os centros das universidades. Aqui também se fala em fuga de cérebros, normalmente para os Estados Unidos ou Alemanha.

Paris é o sonho de muitos artistas que podem terminar cantando no metrô ou desenhando retratos no quai du Seine - a caricatura de suas ambições.

Esta é uma cidade de indianos, árabes e ciganos sempre expulsos. Onde as mulheres muçulmanas foram proibidas de portar a burca. É ainda uma cidade de preconceito, e onde o medo do terrorismo nos deu um Ano Novo sem fogos de artifício. Há algum tempo, a área da Tour Eiffel foi esvaziada. Suspeita de bomba. Não encontraram nada.

Depois de tantos séculos, de tantas guerras; não, Paris não é uma festa. Suas paredes permanecem em pé, mas elas já virm muitas ruínas. Não, não. Paris nunca foi uma festa.

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