Suspeito que todo francês tenha uma amante. Não é para menos – além de serem o povo que mais faz sexo em todo o mundo, é dos franceses a invenção do ménage a trois. Em Paris é possível adentrar num apartamento e se deparar com uma carta de uma dentre as tantas Françoises da cidade agradecendo a um certo senhor pelas “escapadas parisienses”. Sim, nestas palavras.
Ao chegar no aeroporto pode ser ainda que você seja recepcionado por um velho amigo e sua respectiva filial. A matriz está em casa – ele diria – muito cansada. Por isso ele convidou a amiga, claro. Amiga de longa data, vale salientar. Do tipo que conhece os pais do companheiro ocasional. E os pais, claro, se dão ao direito de gostar dela.
Os franceses não se surpreendem com escândalos sexuais como fariam os americanos. A vida particular de seus governantes pouco lhes interessa. Se importam mais com a coletividade e o sentimento de sociedade. De fato, por aqui, é isso que faz as coisas funcionarem.
De modo geral, nascer parisiense deveria contar com um acordo tácito consigo mesmo: o de se permitir ter uma amante. Dizem, inclusive, que a única ressalva que fazem é para Lionel Jospim, acusado de ser demasiado protestante para a regalia.
As ruas de Paris fervilham num misto de conservadorismo e liberdade para experimentação, embora poucos estrangeiros consigam compreender essa complexidade. Há quem veja apenas as paisagens que dificilmente mudam. Outros pensam que a cidade é uma festa sem regras e sem fim.
É preciso tempo e paciência para entender o que existe por trás do casal que se beija atrevido no Quartier Latin. E quando penso que um mês será suficiente, um homem mais velho e mais sábio do que eu não me deixa esquecer: ça passe vite.
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