Não deveríamos sair na terça-feira, sabíamos, mas aquela festa do Erasmus (programa de intercâmbio das universidades da União Européia) estava nos tentando. Decidimos ir. A festa era perto dos Champs Elysées - não que isso fosse um ponto de referência lá muito boa. No meio do caminho, descobrimos que o lugar exato era no extremo oposto do Arco do Triunfo, umas duas ou três estações de metrô.
Os amigos de Luma já nos esperavam no Franprix, de onde saíram abastecidos com algumas garrafas de champagne, uns 4 euros cada. Mais tarde iríamos comprar outras duas. O pessoal queria chegar aquecido no Duplex, onde ia rolar a festa. Tanto fizeram que fomos barrados na entrada. Um dos meninos do grupinho entornava o champagne como se não houvesse amanhã em frente a um segurança. Outra menina, já embriagada, tentava argumentar com a organização da festa. "Vous êtes tous ensemble?", e fomos conduzidos para fora da fila de entrada.
Eu conhecia essa fama de algumas boites de Paris: o critério para entrar ou não é completamente aleatório, mas não esperava ser barrada numa festa do Erasmus. Só porque iria entrar de graça. Sim, estrangeiros não pagam para participar das festas dos intercambistas. Do lado de fora, um grupinho de três garotos - cada um de uma parte do mundo - reclamava com outro segurança. "Mais porquoi? Je comprends rien!", o indiano tentava argumentar.
Uma das amigas de Luma logo se meteu na conversa: "Vocês não conseguiram entrar? Nem a gente. Nossa, você é a cara daquele Raj, do The Big Bang Theory". E juntos, eles desataram a rir. O alemão queria ir embora dalí, talvez até pra casa. O terceiro, do Reino Unido, parecia indiferente. Não, os amigos não iriam deixar o alemão ir embora, muito menos com a louca do Big Bang Theory querendo sair com os três. E ela foi.
O resto de nós até pensou em tentar entrar no Queen's. "Mas lá é bom na segunda", uma das garotas protestava. Terminou que não fomos. Sentamos, bebemos mais um pouco. A menina Big Bang nos ligou. Ela estava com os três desconhecidos no Mac Donalds mais próximo. "Venham pra cá". E fomos. De repente estávamos juntos numa conversa que começou em francês, passou para inglês e terminou com o carinha do Reino Unido entoando "Liberdade pra dentro da cabeça".
Um lanche depois, a ideia era seguir para Châtelet e encontrar um barzinho aberto. Eram mais de 3 da matina, o metrô fechado. Não deveríamos ter saído na terça-feira. Fuck me off, Murphy. Eu e Luma vamos para casa, acertamos. Temos aula no dia seguinte e as coisas estão bem diferentes do nosso plano original. Às vezes você não está para improvisos, acontece.
No meio do caminho, no entanto, já perto da parada do ônibus, eis que a louca Big Bang resolve tentar uma manobra arriscada. Quando saiu sozinha com os meninos, eles deram a ela um spray de pimenta. Supostamente aquilo serviria para que ela não ficasse com medo em sair sozinha com os três. A menina soltou o spray no ar, no meio da rua, mas o vento levou o líquido direto pros olhos de Salin, um turco do grupinho. O indiano deu um sorriso malicioso: "Now you know it works".
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