quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Paris, on arrive

Foi um souvenir que me levou a Paris. Foi uma ida ao teatro – uma peça sobre sexo, mentiras e videotape ainda em Natal. Uma das personagens, Ana, recebe da avó uma caixinha onde se lê “L’air de Paris”. Um souvenir. Ao abrir o presente, no entanto, não encontra nada. Que seria? De repente entende e fecha com pressa a caixinha. Não queria deixar escapar o ar aprisionado. Os ares de Paris na palma de suas mãos.

Que fazer, então, que não se entregar a eles? Eu quis me colocar nas mãos de Paris. Essa cidade de proporções tão pequenas e ainda assim tão grande. Moderna, mesmo tendo mudado tão pouco ao longo dos séculos. As casas noturnas de Paris foram construídas no subsolo. Assim, nem a arquitetura dos clubes destoa do restante das construções nem a música alta incomoda os vizinhos.

As entranhas subterrâneas da cidade ainda rendem outros passeios. Lá, as tubulações de esgoto e as catacumbas são atração turística e, a despeito dos roteiros mais conhecidos, ainda atraem uma quantidade considerável de visitantes.

E se é possível conhecer o subsolo, Paris também revela vertiginosa altura. Na Torre Eiffel, além do passeio tradicional, é possível visitar os bastidores de seu funcionamento. A sala de máquinas que controla os elevadores é então apresentada a engenheiros, estudantes e curiosos do mundo inteiro.

Paris e seus amantes. Nas Galleries Lafayette está o maior departamento de lingeries do mundo, com 2.800 m² de calcinhas rendadas e soutiens de seda. Quer algo mais francês que lingerie, soutien, corselet? Mais tarde, as parisienses poderiam tirar as peças na companhia dos maridos ou amantes.

Com tantas histórias de amor entre as esquinas, quem poderia não se apaixonar por Paris? Os americanos escreveram duzentos romances sobre Paris entre 1824 e 1978, de acordo com “Paris dans la littérature américaine”, de Jean Meral. E o que dizer dos latino-americanos? Que falar de Cortázar, andarilho numa Paris de clochard – em saltos alternados em direção ao céu, o jogo da amarelinha. Ou do personagem de Vargas Llosa em La niña mala, esperando insistente pelo amor?


Há ainda Caio (Fernando Abreu), meu velho Caio, que me lembra que “Paris não é uma festa” – essa terra de cafés e cigarros fortes, de gente de poucos sorrisos.


Tão cantada em prose e em verso, que resta escrever sobre Paris? Quem sabe haja um cantinho escondido pelo Marais? Talvez um artista esquecido em Montmartre ou até uma canção entoada às margens do Sena que ainda ninguém ouviu. As resposta reservo aos ares de Paris e seus segredos seculares. Somente o Atlântico nos separa.

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